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18/11/2009 | 15H59 | Administrador em filosofia da arte
América Latina e Modernidade
A despeito das especificidades dos países latino-americanos é possível localizar alguns traços comuns à implantação da Arte Moderna neste continente: iniciada na primeiras décadas do século passado, ela foi marcada não só pelo confronto com o poder acadêmico das Belas Artes, como também pelas restrições à sua própria expansão impostas por uma realidade sócio-econômica paradoxal. Se por um lado as grandes cidades do continente, como Buenos Aires, México, Rio de Janeiro e São Paulo, viviam um cotidiano moderno, propiciado por sua função econômica, política e simbólica ou pela industrialização nascente, por outro, a articulação orgânica dessas metrópoles com uma economia então predominantemente agro-exportadora, socialmente retrógrada e da qual dependiam, conspirava contra a implantação generalizada do capitalismo que nelas se anunciava.
Trançada com alguns fios de modernidade e as amarras de uma estrutura arcaica, essa contradição histórica já colocava para estes países problemas urgentes, sobre os quais os intelectuais e artistas da época, tinham que se pronunciar para: qual a relação entre as questões universais nascidas no terreno moderno da cidade e as nacionais, germinadas há séculos no solo conservador do latifúndio e da monocultura? Como articulá-las em um projeto cultural moderno que criticando obstáculos sociais profundamente enraizados no passado mantivesse suas tradições? Manifestos simultaneamente modernos e nacionalistas, apesar de contraditórios em relação ao universalismo das vanguardas européias, deram o tom das propostas renovadoras da arte continental das três primeiras décadas do século XX. Diversos deles tais como o Pau-Brasil (1924) e o Antropófago (1928); o Martin Fierro (1924, Argentina); e la Escuela del Sur, de Torres-Garcia (1935, Uruguai), marcam a importância da questão nacional na arte latino-americana dos anos 20 e 30.
Não seria impróprio dizer que a politização e a conseqüente desestetização do debate sobre a arte latino-americana foi um fator que adiou sua efetiva modernização para o período da guerra ou do pós-guerra pois, a invenção formal e a pesquisa de linguagem que caracterizavam as vanguardas européias deveriam florescer sobretudo no campo da investigação formal, cromática, espacial, matérica, específica da arte, e não no território deslocado do discurso social. Contra essa arte quase temática formaram-se, logo após a 2ª Grande Guerra, no Rio de Janeiro e em São Paulo, os primeiros grupos de artistas abstrato-concretos do Brasil. O nascimento da nova tendência não só coincidia com a redemocratização ocorrida em 1945, após a queda da ditadura de Getúlio Vargas, no poder desde 1930, como manifestava, no campo cultural o espírito propiciado pela reconquista dos direitos civis, aos quais agregou, simbolicamente, a liberdade de divergir para renovar. Nesse sentido, a simples emergência dos abstracionismos geométrico e informal no panorama cultural do país era, naquele momento, mais politizada e radical do que o desgastado Realismo Social pois instaurava uma dissidência capaz de abalar o monopólio da arte dominante.

Fernando Cocchiarale
É o curador oficial do Olheiro da Arte. Crítico de arte, curador independente e professor de Filosofia da Arte. Também é autor do livro “Quem tem medo da arte contemporânea?”, entre outros títulos.
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